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A indústria de massa, Benjamin, & a tentativa de padronizar sucesso

Desde criança, percebo que existe uma natureza cíclica para certos modismos.

Teve uma época em que todo mundo brincava com Tazos, mais tarde foram Cavaleiros do Zodiaco, depois tivemos um período do retorno nostálgico de bolinhas de gude, e todos jogavam...essas tendências funcionavam de forma similar ao que hoje entendo como "o sino de difusão de inovação de Rogers".

Em 1962 o sociólogo Everett Rogers publicou sua tese de doutorado (PhD) onde ele havia feito uma extensa revisão de estudos relativos à difusão de inovações, notadamente de inovações tecnológicas no meio agrícola e que também incluía estudos em diferentes áreas, dentre elas marketing.

A teoria de Rogers destacou que as inovações não se difundem de modo linear pelos diferentes segmentos de uma sociedade ou grupo social.
  
Desde Rogers, empresas têm se esforçado à tentar encontrar tendências antes delas tomarem massa crítica, ou seja, antes de ser aceita pela "Maioria inicial".

Para isso, eles tentam dissecar coisas que tiveram sucesso, e analizar umas contra as outras, até encontrar padrões. Uma vez encontrado esse "padrão", vemos uma enxurrada de clones do sucesso original, com variações mínimas, que tentam emular a mesma trajetória.

Contudo, essas tentativas, em muitos casos, apenas geram cópias inferiores do simulado. Isso pode ser relacionado com a teoria de Walter Benjamin, que dizia que a obra original possui uma aura, cujas cópias não conseguem reproduzir.

Temos o sucesso absoluto de uma série como Friends, que conta a história de amigos jovens em Nova York, e com ela, inúmeras versões sem propósito, que tentam captar o que tornava a série um sucesso, mas não conseguem emular sua essência.


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A ruptura da aura do objeto artístico leva à perda da sua “unicidade”, “singularidade” e “autenticidade” e a uma alteração do seu valor de culto. Ao vermos cópia após cópia de um mesmo mote ou tema, acabamos por questionar a obra original.

A verdade é que não existe fórmula única para sucesso. É um conjunto de fatores que contribuem para o sucesso de um filme ou franquia. Contudo, como seres humanos, tentamos buscar padrões em coisas. Essa tendência é chamada Apofenia.

Apofenia é um termo proposto em 1959 por Klaus Conrad para o fenômeno cognitivo de percepção de padrões ou conexões em dados aleatórios. Temos uma tendência natural em buscar padrões onde não existem. Por exemplo, no teste projetivo de manchas Rorschach a apofenia é estimulada com o objetivo de identificar padrões significativos na vida do indivíduo que ele projeta sobre a mancha.

Essa incongruência em tentar entender causa e efeito no processo de difusão leva a uma enxurrada de produtos "sem aura", criados pro estúdios para fazer dinheiro.

Essa busca vazia por retorno monetário impede novas histórias de serem contadas. Acabamos por ver apenas o mesmo conto, repetidas vezes.

Capitão Marvel perdeu uma guerra judicial contra o Superman em acusações de plagio.
Tendências tornam-se modismos não por padrões, mais por que elas tocam algo dormente no público, e captam algo inerente na sociedade em que nasceram. É o famoso Zeitgeist, o espírito da época.

O conceito de espírito de época remonta a Johann Gottfried Herder, que dizia que a arte reflete, por sua própria natureza, a cultura da época em que esta foi feita.

Ao tentar forçar sucesso, emulando padrões, a indústria rouba arte de sua alma e sua natureza. E acabamos com a possibilidade de novas histórias e diferentes pontos de vista.

Nerds X Hipsters: Capital Cultural & Iconografia tribal

É engraçado. Me lembro na minha juventude de assistir na sessão da tarde filmes como "Vingança dos Nerds" e pensar que ser nerd deveria ser a pior coisa do mundo. Eles eram retratados como seres socialmente retardados, dignos de pena.

Porém, vivemos num mundo "Big Bang Theory". Ser Nerd não só é aceitável. É quase norma.

Para preencher a lacuna de pária social, rótulo que ninguém deseja receber, foi criado uma nova categoria tribal: O Hipster. E não existe coisa pior no mundo que ser nomeado hipster. 
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Hipster é um termo frequentemente usado para se referir a um grupo de pessoas pertencentes a um contexto social subcultural da classe média urbana. A cultura hipster faz parte da variedade de subculturas que coexiste com a cultura mainstream.

A cultura hipster é marcada pela música independente, saudosismo recorrente, uma variada sensibilidade para a tendência non-mainstream (não comum, não recorrente) e estilos de vida alternativos. Os interesses referentes à mídia por esse grupo incluem filmes independentes, revistas e websites notadamente relacionados à música alternativa.

A cultura hipster tem sido descrita como um "mutante caldeirão transatlântico de estilos, gostos e comportamentos".

Então, por que tanto ódio aos hipsters? 


http://cdn.mundodastribos.com/607539-Estilo-hipster-roupas-e-acess%C3%B3rios.2.jpgBem, é simples. Enquanto hipsters clamam interesse por diversos elementos das mais diversas subculturas, eles não celebram esse interesse. Eles se utilizam desses ícones de forma irônica.

Se a ironia é o éthos de nossa época – e ela de fato é –, então o hipster é o nosso arquétipo do estilo de vida irônico.

E esse é o grande divisor de águas entre o Nerd e o Hipster. O Nerd celebra as coisas que ele gosta de forma efusiva. Existe uma ingenuidade no amor nerd, enquanto o Hipster carrega toda sua iconografia com um certo desprezo.

E isso é provavelmente o que causa o repúdio de outras tribos  à figura do Hipster. A chacota que ele faz dos interesses genuínos de outras subculturas.

Vemos as escolhas dos hipsters mais como performances do que como naturais. 

Segundo o sociólogo Pierre Bourdin, os nossos signos sociais possuem poder, que ele chama de "Capital Cultural".


Para Bourdin, objetos ou ícones sociais carregam valor a eles atribuídos. Utilizar deles, portanto, lhe dá status. Esse status, contudo, claramente é interpretado de forma diferente dependendo do grupo social pertencente. Para que um elemento seja aceito por diversos grupos como status, é uma batalha.

Essa luta simbólica decide o que é erudito ou popular, de bom ou de mau gosto. Dos elementos vitoriosos, formam-se o habitus e o código de aceitação social.

E, enquanto a maioria das subculturas têm de lutar pra ser percebida e adquirir valor para seus ícones, hipsters agem como bucaneiros, roubando e fazendo pastiches do que melhor funciona.

Eles estão, metaforicamente, usufruindo do valor cultural da iconografia, sem tomar parte do contexto e conteúdo da mesma.

Moda como instrumento de catarse


Gostaria de iniciar explicando que eu não vou entrar no debate se moda é arte ou não. Moda É arte. É uma forma de expressão artística, e esse post toma essa definição por base para construir toda essa minha teoria.

Arte (do latim ars, significando técnica e/ou habilidade) pode ser entendida como a atividade humana ligada às manifestações de ordem estética ou comunicativa, realizada por meio de uma grande variedade de linguagens.

 Segundo Tolstoi, arte é "[...] a atividade humana que consiste em um homem comunicar conscientemente a outros, por certos sinais exteriores, os sentimentos que vivenciou e os outros serem contaminados desses sentimentos e também os experimentar."

A moda pode ser definida como sendo uma forma de expressão, e ela exerce um papel de catarse psicológica. Ela estabelece a identidade social do indivíduo para si e para os outros.


Quando escolhemos o que vamos vestir no dia, estamos imbuindo nossa indumentária de significado. Ela se torna o representativo de como estamos nos sentindo, ou como queremos nos sentir. Ela expressa nossa atitude no momento, nossos desejos para o dia, nossas aspirações.

Ao nos prostarmos em frente ao espelho, estamos construindo uma mensagem, e uma persona. 

A maioria, se não todas as pessoas, têm vários arquétipos em jogo na construção da sua personalidade. Já falei sobre arquétipos em um post anterior. A arte e moda operam como expressão dessas personas, assim como uma forma visual de delimitá-las.


A roupa em si age como um espelho às avessas, reflete para o outro o jeito de ser, sentir e pensar dos indivíduos e dos grupos sociais. É divisor de fronteiras entre classes, grupos ou subgrupos, dentre estes os profissionais. O conflito entre o eu individual e o eu social busca o equilíbrio através desta forma de comunicação.

O vestuário varia em diferentes partes do mundo, e em diferentes situações. Essa diferença ocorre porque os indivíduos usam-no por motivos distintos. A forma com a qual nos vestimos faz parte de todo um conjunto de signos sociais.

Signos sociais são modelados pelo meio para que exista comunicação. É necessário que o indivíduo conheça todo um sistema de símbolos inerentes a determinada realidade. O signo é considerado um representante das coisas, isto é, da realidade. 


A maneira de "se vestir" é carteira de identidade, não só desta era pós-moderna, como em todo decorrer da história da humanidade.